6. CULTURA edio especial 45 anos set.2013

1. DA CENSURA AO POLITICAMENTE CORRETO
2. E AGORA, JOS
3. ADEUS AO FEMINISMO VELHA-GUARDA
4. O CREPSCULO DOS DEUSES

1. DA CENSURA AO POLITICAMENTE CORRETO

O PAS MOSTRA A SUA CARA
2 de outubro de 1985
"O Brasil real  esse do misticismo e das falcatruas polticas. Acho que os telespectadores estavam cansados de cocotas e surfistas", dizia Aguinaldo Silva na edio de VEJA que dedicou sua capa  telenovela Roque Santeiro. A reportagem procurava explicar as razes do extraordinrio sucesso do folhetim  exibido na faixa das 8 da noite pela Rede Globo  que ele passou a escrever a partir do captulo 41, depois que Dias Gomes, autor do original, declinou da tarefa, declarando-se exausto para seguir na empreitada. Rondando a casa dos 80% de audincia, ou 60 milhes de espectadores, um recorde absoluto, segundo o Ibope, a trama consagrou os personagens Viva Porcina, vivida por Regina Duarte, e Sinhozinho Malta, papel de Lima Duarte (Roque era interpretado por Jos Wilker). A primeira verso da telenovela, de 1975, com Betty Faria no lugar de Regina Duarte e Francisco Cuoco no de Jos Wilker, fora proibida de ir ao ar pela censura, que vetou a produo na noite de estreia. 

TRECHO "A notvel eficcia de Roque Santeiro (...) no pode ser atribuda apenas  criatividade de Aguinaldo Silva ou de Dias Gomes, ainda que sejam eles os responsveis por um enredo enxuto, em que todas as aes so imprescindveis para o andamento da novela. Roque , antes de mais nada, a conjugao meio mgica do acaso com a mquina de produes da Rede Globo e o talento de uma srie de artistas e tcnicos, que aparecem na frente e atrs das cmeras. Desde a autoria, a novela  um produto hbrido, que passa por centenas de mos antes de chegar ao vdeo." 
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O coautor de Roque Santeiro escreve sobre o estrondoso sucesso da novela que nasceu proibida e chacoalhou o horrio nobre de um modo que j no se v
AGUINALDO SILVA

     Bons tempos aqueles em que um captulo de novela escrito de uma pernada s na mquina de escrever Olivetti porttil  sem direito a correes por parte do autor, mesmo depois de viajar at Braslia e sair das canetadas dos censores quase sempre com alguns cortes  era capaz de mesmerizar o pas inteiro. Foi assim com muitas novelas dos anos 1970 e 1980, porm mais que todas o foi com Roque Santeiro (1985), que tive a honra de coescrever e que, em termos de audincia, at hoje  um marco inalcanvel. 
     Sim, bons tempos aqueles em que o pas ainda sujeito aos resqucios da ditadura  pois se mantinha em voga a ameaa dos no comments celebrizados pelo ex-ministro Armando Falco, para quem tudo o que dissesse respeito  cultura era suspeito  tinha nas novelas de televiso, at hoje vistas como um gnero menor pelos produtores da Grande Arte, sua efetiva e nica pausa para respirar. Sua vlvula de escape. Se hoje me perguntassem que produto cultural daquela poca melhor entendeu a nsia do povo brasileiro de encontrar quem ouvisse sua voz e falasse por ele, que lhe desse rosto e o representasse, eu diria sem pensar duas vezes: no foi uma pea de teatro, ou um filme, ou um dos romances polticos ento perpetrados em cascata. Foi, sim, uma simples novela de televiso. Foi Roque Santeiro. 
     Claro, digo isso a partir de uma perspectiva de 28 anos. E o que me 3 perguntam no  o que acho agora, 
     
     mas o que achei na poca. Como foi escrever Roque Santeiro, uma novela que no era minha, mas me caiu s mos e  qual senti que devia dar meu sangue? Como era escrev-la sabendo que ela se tornara maior e mais real que a vida atribulada das ruas? Por acaso ao escrev-la eu me sentia imbudo de alguma misso? A resposta a tudo isso pode ser desapontadora. 
     Roque Santeiro me dava a mesma alegria que dava ao povo. Mas no era nisso que pensava quando, junto com Joaquim Assis e Marclio Moraes, produzamos um aps outro seus captulos dirios. Eu pensava no que podia acontecer a qualquer momento  os cortes, as proibies, as restries que resultariam na morte de personagens e tramas e, por fim, o pior de tudo: a proibio de um produto cultural de tamanho alcance e, em sua essncia, to subversivo. 
     Sim, a alegria de escrever a novela era menor que o medo. Porm, maior que a alegria e o medo era a prpria novela, que saa de nossas mquinas de escrever aos borbotes sem nada que a constrangesse. Houve um momento em que Paulo Ubiratan, diretor- geral de telenovelas da Rede Globo, comentou comigo: "Tenho a impresso de que voc acordou de manh e descobriu que o captulo se escrevera sozinho durante a noite". 
     Roque Santeiro era isto: um vento que provocou um frmito no pas j na noite de estreia, e nas noites seguintes soprou cada vez mais forte. Isso podia ser comprovado facilmente pelo som da vinheta que assinalava o comeo e o fim de cada intervalo comercial da novela  a de Roque Santeiro era sublinhada pelo tilintar de uma aurola de santo que ficava sobre o ttulo da novela e lembrava o famoso plim-plim dos intervalos da Rede Globo. Durante a exibio de Roque Santeiro, mal vinha o primeiro toque eu corria para a janela da minha casa em So Conrado, no Rio de Janeiro, e ficava esperando que o som do plim-plim ecoasse na minha rua, no meu bairro, na minha cidade... No pas inteiro. 
     Sim, bons tempos aqueles em que, embora ainda estivesse vvido na memria o som das botas dos militares a ecoar nas madrugadas, apesar da censura tenebrosa e das ameaas de processo por causa do que se dizia, escrevia ou fazia, uma telenovela era capaz de conquistar mentes e coraes, dizer s pessoas sobre os seus personagens "estes somos ns!" e, assim, se tornar maior que tudo. No era assim que eu sentia Roque Santeiro na poca, quando a presso de escrev-la era s o que contava. Mas  assim que a vejo agora, como o momento mgico que foi, ao dar a um povo sufocado a chance de reconhecer, mesmo que numa obra de fico, sua prpria cara. 
     Nenhuma outra das novelas que escrevi me provocou essa arrogante sensao de ser porta-voz dos sentimentos do povo. Nem mesmo Tieta (1989), que foi ainda mais libertria, j que no teve de enfrentar as limitaes impostas pela censura. Enquanto esta existia, cada telenovela que estreava era como um salto no abismo, uma queda que podia resultar em consequncias extremas, e a proibio de ir ao ar a verso original da prpria Roque Santeiro  em plena noite de estreia, em 1975  foi uma delas. 
     Mas ento havia um grupo de novelistas que tinha um passado e nada temia. Nos ltimos tempos, sempre que me lembro de um desses intrpidos novelistas, Alfredo Dias Gomes  autor de O Bero do Heri, a pea de teatro na qual se baseou a histria de Roque Santeiro , eu me divirto a imagin-lo parodiando a famosa cena de Gloria Swanson no clssico filme Crepsculo dos Deuses. Algum diria a Dias Gomes, a propsito dele e dos seus colegas da poca: "Vocs eram grandes". Ao que ele responderia: "Ns continuamos grandes. As novelas  que ficaram pequenas". E eu acrescentaria que, se as novelas ficaram pequenas, a Cultura Popular no vai alm do colarinho no copo da cerveja e a Alta Cultura, gente, onde est? Virou menos que Mdia Cultura. 
     Roque Santeiro e outras novelas da poca no se conformavam com os limites do gnero, queriam fazer histria. Hoje, quando quem as escreve  supostamente livre, quando se pode dizer tudo e tratar dos temas e personagens mais polmicos, qual a diferena entre uma e outra poca? A mesma pergunta vale para os outros gneros de arte. Hoje no se cria; apenas se entrega uma encomenda, faz-se um produto. No h censura, mas existem as regras do mercado. No h censores, mas, tal como a erva daninha, brotam de todos os desvos os piores deles: os defensores do politicamente correto. Por isso as novelas  assim como os livros, as peas de teatro, as msicas  apenas vm, vo e logo se confundem umas com as outras. 
     Escrever novelas hoje em dia no  uma misso;  apenas mais uma tarefa. Ns, os dinossauros que sobreviveram ao gnero, ainda as escrevemos; porm, o fato  que sabemos: j no  mais o bom combate nem o melhor esforo. Por isso, mesmo correndo o risco de parecer apenas nostlgico, repito: bons tempos aqueles, meus senhores. 
     
Aguinaldo Silva  autor das telenovelas Senhora do Destino e Fina Estampa, entre outras.


2. E AGORA, JOS

DOIS ENCONTROS COM A MORTE
26 de agosto de 1987
"Em apenas doze dias, o poeta Carlos Drummond de Andrade esteve duas vezes no Cemitrio So Joo Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro", dizia a abertura do texto de VEJA que tratou da morte do escritor itabirano, aos 84 anos. Na primeira, explicava a revista, fora para enterrar "a pessoa que mais amava, a filha, Maria Julieta". Na segunda vez, foi para ser, ele mesmo, enterrado: "Achando brbaro o espetculo da morte da filha, o poeta delicado preferiu morrer". Em dez pginas, VEJOA sintetizou a vida, a obra e o legado de um dos mais singulares autores da lngua portuguesa, com poucos, raros rivais  no seu ou em qualquer outro sculo.

TRECHO "Contra a luxuriante paisagem tropical, o verso de Drummond contrape o sono rancoroso dos minrios, os peixes cegos do tempo, o medo que esteriliza os abraos. Ele nega a grandiloquente e falsa festa da vida para procurar apenas o vivo, 'o pequenino calado, indiferente e solitrio vivo'. Terrvel no que tem de desespero e bela por transformar esse mesmo desespero em germe de esperana, a obra de Drummond nega o deserto da vida literria brasileira. Ela  a flor furando o asfalto das corriolas de vates que trocam tapinhas nas costas, elogios e favores." 
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Agora, no faz sentido procurar por um novo Carlos Drummond de Andrade. O papel da literatura, em qualquer idioma, diminuiu muito. E cada poca produz no s os seus talentos como tambm a balana com que se deve pes-los.
SRGIO RODRIGUES

     O poeta morreu no dia 17 de agosto de 1987. Do ponto de vista de um novo sculo,  tentador afirmar que a prpria poesia  como a literatura em geral  no demoraria a seguir seus passos. Essa afirmativa, por conter um exagero, requer explicao. Uma reportagem de capa como a que VEJA fez quando da morte de Carlos Drummond de Andrade dificilmente ser reeditada com um de seus colegas de ofcio na hora que lhes chegar a "indesejada das gentes" (para usar a expresso de outro monumento potico brasileiro, Manuel Bandeira). Ou mesmo, para citar um gnero mais prximo do gosto popular, com um de nossos romancistas. 
     Poemas e romances ainda so escritos, claro, em quantidade indita e em certos casos, com boa qualidade. Contudo, j no ocupam na cultura a posio central e ressoante que permitiu a Drummond entranhar imagens e bordes na linguagem comum de todo um povo: "Tinha uma pedra no meio do caminho", "E agora, Jos?". "Seria uma rima, no seria uma soluo". Ou elaborar, numa voz ambiciosa e menos acessvel ao grande pblico, mas no menos impressionante, um poema filosfico como A Mquina do Mundo, do livro Claro Enigma, de 1951. Nesse candidato ao pdio potico da lngua portuguesa em qualquer poca, o poeta caminha por uma estrada de Minas quando v se abrir  sua frente "essa total explicao da vida, / esse nexo primeiro e singular / que nem concebes mais, pois to esquivo / se revelou ante a pesquisa ardente / em que te consumiste...". Todos esses exemplos so citados no necrolgio de VEJA. 
     Procurar no sculo XXI o "novo Drummond" seria como esperar pelo "novo Pele": um despautrio. Se a constatao  indiscutvel, crticas simplistas que a atribuem  suposta decadncia da cultura (e do futebol) no pas deixam de levar em conta o fato de que. em cada poca, a mquina do mundo fabrica no apenas seus produtos, mas tambm a balana com que se deve avali-los. Na cultura globalizada, informatizada, ps-industrial, o peso da literatura diminuiu tanto que apregoar sua morte tem sido um dos estratagemas preferidos de crticos acadmicos e miditicos em busca de uma aura radical e provocadora que, pela repetio, acaba provocando apenas bocejos. O fenmeno no se restringe ao Brasil. Se no temos mais um escritor do tamanho de Carlos Drummond de Andrade ou Guimares Rosa, tambm no surgiram na literatura francesa um novo Albert Camus nem na Argentina um Jorge Luis Borges interntico ou nos EUA um William Faulkner redivivo. 
     Em 2010, a revista semanal americana Time estampou na capa uma foto do escritor Jonathan Franzen, que ento lanava o romance Liberdade, com o seguinte ttulo: "Grande romancista americano". Pela primeira vez em dez anos, para pasmo geral, um profissional das letras ia parar na cobiada vitrine da revista. Franzen foi escolhido para isso quando tinha ento 50 anos, a mesma idade de John Updike em 1982, ao chegar  capa da mesmssima Time. No era por falta de experincia ou talento que sua presena ali provocava um estranhamento que a de Updike no provocara.  que, naquelas trs dcadas, a  mquina do mundo tinha alterado as especificaes da balana. 
     Uma das melhores reflexes sobre esse rebaixamento cultural da literatura  do crtico e escritor italiano Cludio Magris. "Desde seu nascimento  ou seja, desde o romantismo ou j no fim do sculo XVIII , a literatura contempornea  marcada pelo sentimento de uma ferida profunda que a histria parece ter infligido ao indivduo, impedindo-o de realizar plenamente a prpria personalidade em acordo com a evoluo social e fazendo-o sentir a impossibilidade e a ausncia da vida verdadeira, o exlio dos deuses e a fragmentao de sua prpria existncia", escreve Magris, parecendo falar do prprio Drummond. E conclui: "Agora tudo isso parece findo; um karaok em diversos nveis suplantou toda utopia e toda revoluo e, como previra Nietzsche, o prprio homem est mudando radicalmente". O pior  que o maior poeta brasileiro j no pode traduzir para ns todo esse burburinho. 


3. ADEUS AO FEMINISMO VELHA-GUARDA

PROVOCAO GLOBAL
25 de novembro de 1992
Madonna Louise Veronica Ciccone era a artista mais famosa e censurada do mundo quando concedeu a VEJA uma longa entrevista exclusiva publicada nas Pginas Amarelas, que ganhou a capa da revista. A cantora tinha lanado, havia pouco, o disco Ertica e o livro de fotos Sex  no qual aparecia nua ou seminua em 327 imagens. Chupando um picol vermelho e envolta numa echarpe de plumas rosa, Madonna falou, entre outros assuntos, sobre sua carreira, cinema, fantasias sexuais, sociedade americana e, claro, homens e mulheres. A certa altura, perguntada sobre a morte, disparou: "Vou viver 300 anos". Considerando o alcance de sua influncia dentro e fora do universo pop ainda hoje, ao menos at agora parece improvvel desmenti-la.

TRECHO VEJA  Voc  a artista mais famosa do mundo e tambm a estrela mais censurada de todos os tempos. Essa represso destina-se a domestic-la. Por que voc no baixa a bola?
Madonna  Eu sou censurada porque procuro mostrar a verdade, e a verdade incomoda. A ideia de me conformar no me passa pela cabea. Fao o que eu quero e vou continuar a fazer. Os artistas no devem se conformar. Quer saber de uma coisa? Essa questo nem me preocupa. (...)
VEM  Se voc fosse homem, a baixaria contra o seu trabalho seria a mesma?
Madonna  No posso saber porque no sou homem, mas acho que seria bem menor."
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Ela j no  a todo-poderosa formadora de opinio que irritava os tradicionalistas  contudo, a sempre espetacular Madonna mantm sobre as mulheres uma influncia jamais alcanada por outra artista.
CAMILLE PAGLIA

     Meu polmico manifesto sobre Madonna provocou uma exploso quando foi publicado pelo The New York Times, em 1990. O artigo me deixou famosa da noite para o dia  ou deveria dizer famigerada? No havia meio-termo: eu era Joana d'Are ou Rasputin. 
     At ento, eu no passava de uma obscura professora universitria. Antes, meu primeiro livro, Personas Sexuais, tinha sado sem nenhuma publicidade. Eu representava uma ala dissidente do feminismo que havia sido silenciada e exilada durante vinte anos pelas lderes puritanas americanas do movimento, com sua retrica antimacho e sua cruzada fantica contra a pornografia, que elas denunciavam obsessivamente at mesmo nas obras de artistas como Goya e Picasso. 
     Minha declarao de que "Madonna  o futuro do feminismo" foi recebida com incredulidade e chacota universais. Mas, ao longo da dcada seguinte, aquela profecia se tornou realidade,  medida que uma gerao de jovens mulheres rebeldes, profundamente influenciadas pela cantora e compositora, emergiu no movimento de liberao do feminismo pr-sexo e pr-beleza que varreu para bem longe a velha guarda das feministas stalinistas. 
     Madonna se tornou uma vtima de sua prpria fama e riqueza. J faz tempo que ela perdeu seu status de formadora de opinio de vanguarda nos Estados Unidos. Mas sua influncia permanece gigantesca, numa escala global sem precedentes, em toda a histria, para qualquer artista do sexo feminino. Suas roupas, seus movimentos quando dana e a cenografia de seus shows ainda so imitados por toda parte  at mesmo na ndia. O ltimo quarto de sculo foi, de fato, a Era de Madonna. Com sua "ambio loira" que no deve desculpas a ningum e sua astcia para os negcios, ela  um carismtico exemplo para mulheres empreendedoras em qualquer campo. 
     Entretanto, a persona sexual camalenica da cantora e seu talento para a publicidade, demonstrados em sua maestria com os videoclipes e as fotografias de moda, tornaram-se tanto uma inspirao quanto um fardo para as jovens. "Faa uma pose" (Strike a pose), cantava ela em Vogue. Na msica pop, tudo agora se refere  "imagem"  uma projeo superficial de estilos e comportamentos que, muitas vezes, so lamentavelmente alienados de valores artsticos. A vtima mais grotesca dessa sndrome  Lady Gaga, imitadora de Madonna, que todo dia, de uma maneira compulsiva, veste um novo figurino bizarro para ir  academia ou ao aeroporto. A prpria Madonna, no entanto,  muito mais realista: ela bravamente vai  academia sem maquiagem e com uma roupa velha e prtica. 
     Recaem sobre as cantoras exigncias terrveis para que paream sempre jovens e bonitas, de modo que as plsticas, o Botox, os implantes e os preenchimentos se tornaram um regime tirnico. A mesma coisa acontece no cinema, em que poucos papis agora so escritos para mulheres mais velhas, exceto para atrizes com maior experincia em teatro  como Judi Dench e Helen Mirren. A Hollywood clssica, apesar de seu foco no glamour, criou regularmente personagens secundrios interessantes para atrizes mais velhas. De modo semelhante, a tradio do jazz sempre reverenciou divas virtuosas de idade avanada, como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Nosso culto cruel da juventude  algo muito distorcido para garotas adolescentes que habitam um ambiente miditico enganoso, em que as fotos de estrelas e de modelos so agora retocadas automaticamente com Photoshop. 
     Outra tendncia que Madonna ajudou a lanar foram as mudanas nas turns mundiais, que se tornaram mais elaboradas e altamente lucrativas. Devido  concorrncia do compartilhamento de msica pela internet, as vendas de CDs caram radicalmente, e os shows hoje constituem 70% dos lucros na indstria da msica. O imenso aparato tcnico necessrio a essas apresentaes em estdios gigantescos, com sua intrincada sincronizao de efeitos de luz e projees. resultou numa perda dramtica da espontaneidade. Tudo  rigidamente roteirizado. Tanto autoafinadores quanto playback so usados at mesmo por cantores de peso nos momentos de coreografia intensa. 
     Fora isso, essas turns mundiais exaustivas e repetitivas so muito destrutivas para o desenvolvimento criativo de jovens artistas sensveis, que precisam da exposio de sua vida no dia a dia e de suas relaes privadas para alm dos refletores. A fama pode se tornar um vcio sedutor. A indstria da msica  um ambiente txico para os jovens que no tm a resistncia e a fora de vontade de Madonna. 
     Ao adotar de modo ousado a sensualidade latina, ela estabeleceu os fundamentos para a atual predominncia multirracial que vemos na msica pop. O impacto de Madonna pode ser claramente detectado na figura pop de Shakira, com sua ascendncia espanhola, italiana e libanesa. Atravs de Janet Jackson, Madonna tambm inspirou Beyonc, filha de me creole, da Louisiana, e de pai nascido no Alabama; e ainda Rihanna, uma negra de Barbados, em parte descendente de irlandeses. 
     Este  um momento de grandes oportunidades para as cantoras do Brasil, com sua excepcional sociedade multirracial. Tendo em vista o vasto universo brasileiro de msica impressionantemente bela e potica, considero um escndalo quo pequeno  o papel que o Brasil atualmente tem na cena internacional do pop. Quando eu estava na faculdade, nos anos 60, a elegante bossa nova era ouvida em todo lugar, inclusive nos filmes. Mas a maioria dos estudantes de hoje em dia no sabe nada sobre o Brasil, exceto o que lhes chega por meio do esteretipo caricatural dos folies carnavalescos seminus, algo que em nada mudou ao longo de cinquenta anos. 
     Embora Shakira tenha sido criticada por abandonar as razes latinoamericanas, sua vontade de gravar em ingls (a lngua franca da atualidade) foi a ponte para que seu trabalho se tornasse mais amplamente conhecido. De modo semelhante, as cantoras brasileiras que buscam reconhecimento global devem experimentar  letras em ingls como uma ferramenta provisria. Em segundo lugar, elas devem se aliar a produtores internacionais radicados em Nova York, Los Angeles ou Londres, onde prosperam as inovaes de ponta.  exatamente assim que Rihanna foi alada  fama global e por causa disso continua a gravar no somente as agitadas canes de hip-hop, mas tambm baladas delicadas que expressam com eloquncia as mgoas que traz dentro de si. As estrelas brasileiras talvez tenham de sair de sua zona de conforto, porm isso pode ser feito, com certeza, sem sacrificar a ligao maravilhosamente intensa com seus fs brasileiros.
     
Camille Paglia  professora de cincias humanas e estudos da mdia na Universidade das Artes em Filadlfia. Seu livro mais recente  Glittering Images: A Journey Through Art from Egypt to Star Wars (Imagens Brilhantes: uma Jornada pela Arte, do Egito a Guerra nas Estrelas), com previso de lanamento no Brasil em 2014.


4. O CREPSCULO DOS DEUSES

UMA CARREIRA FULGURANTE
21 de junho de 2000
Quando Tom Cruise estava para lanar o primeiro Misso: Impossvel, em 1996, algum perguntou  produtora Paula Wagner o que levaria o pblico a ir ver uma aventura baseada num seriado dos anos 1960. "Tom Cruise, Tom Cruise e Tom Cruise" foram as razes contabilizadas por Paula. Quatro anos depois, quando VEJA dedicou a ele uma reportagem de capa, o astro s fazia confirmar esse juzo: era um fenmeno sem rival na histria do cinema. Nunca um ator ganhara nem rendera tanto quanto ele; poucos haviam infludo de forma to decisiva no material que estrelavam; e nenhum somara a esse poder o mpeto de continuar se testando com tantos grandes diretores. 

TRECHO "Para o pblico americano, ele  to especial que os analistas da indstria de cinema falam em 'demanda reprimida' quando Cruise passa uma temporada longe das telas. Por isso, ele diz, as cifras astronmicas que recebe por seus trabalhos so justas. 'Eu valho o que ganho', afirmou recentemente  revista Vanity Fair. Ele diz ficar chocado quando algum sugere que o cach  o que atrai na profisso. 'Nunca trabalhei por dinheiro. Nunca', jura." 
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Os adolescentes hoje ditam o que os estdios vo produzir. E agora no so os astros antes imbatveis, como Tom Cruise, que lideram a sua preferncia: so os personagens  especialmente os super-heris.
ISABELA BOSCOW

     Desde sua aurora, nas primeiras dcadas do sculo XX, a imensa engrenagem que  a indstria cinematogrfica americana entendeu que dependia de uma pea em especial para continuar a girar: seus astros, Rodolfo Valentino, Lillian Gish, Mary Pickford e Charles Chaplin no cinema mudo; Cary Grant, James Stewart e Marilyn Monroe em meados do sculo; Robert Redford, Paul Newman e Jane Fonda na revoluo que foi a dcada de 70: Harrison Ford, Mel Gibson, Tom Hanks e Julia Roberts nos anos 1990; e Brad Pitt, George Clooney, Angelina Jolie e Johnny Depp no passado recentssimo. Foi nesses rostos e em tantos outros que as plateias encontraram sua conexo profunda com o cinema  e a simples presena deles quase sempre era o nico aval de que os espectadores precisavam para lotar uma sala. Entre todas essas constelaes, ningum brilhou com mais intensidade do que Tom Cruise: com seu sorriso rasgado, sua dedicao transparente e o tino inigualvel para planejar sua carreira (algo que, antes dele, poucos cogitavam fazer), Cruise rapidamente saltou de um incio promissor, l por 1981, para o megassucesso Top Gun  Ases Indomveis, em 1986  e dele para a estratosfera. 
     Quando VEJA o estampou na capa da edio de 21 de junho de 2000, ele tinha 37 anos e era, na descrio da reportagem, "uma mquina de fazer dinheiro". Era ento o nico ator a ter estrelado cinco produes consecutivas com mais de 100 milhes de dlares na bilheteria americana; e, graas a um sistema de remunerao que ele prprio contribuiu de forma decisiva para cimentar, o da participao dos astros na renda de seus filmes, embolsava algo como 70 milhes de dlares a cada trabalho. O filme que Cruise estava lanando naquele momento, Misso: Impossvel  2, acumulou 680 milhes de dlares no mundo, em valores corrigidos pela inflao. Mas compare-se ento essa performance  dos seus dois lanamentos mais recentes. O thriller de ao Jack Reacher  O ltimo Tiro somou 216 milhes no mundo; a fico cientfica Oblivion, 286 milhes. Os nmeros parecem respeitveis  mas, do ponto de vista dos estdios, que pagam caches muito altos e gastam muito para produzir as histrias que eles estrelam, so cifras decepcionantes. Mudou Cruise ou mudou o cinema? Mudou o cinema. E, com ele, mudaram a plateia e o seu apetite. 
     Como toda transformao, esta comeou a deitar razes bem antes que se pudesse perceb-la. Ela teve incio, na verdade, na metade da dcada de 70, quando Steven Spielberg fez Tubaro e seu amigo George Lucas lanou o primeiro Star Wars: estava inventado o "blockbuster", o filme de vero que mirava o paladar da plateia adolescente para a fantasia e as emoes fortes. A diferena  que, naquele tempo, o pblico jovem era considerado apenas um dos muitos files que Hollywood poderia explorar. Hoje, quando os estdios fazem suas contas, ele  o nico que interessa. Primeiro, compra mais ingressos que todos os outros juntos. Depois, comunica-se com intensidade e velocidade vertiginosas por meio das redes sociais, multiplicando assim a potncia das suas preferncias. E elas so muito especficas: criaturas fantsticas em geral e super-heris em particular. Esse pblico faz astros, claro, como o Johnny Depp de Piratas do Caribe. Sua mais recente aquisio  Brad Pitt, que acaba de bater seu recorde pessoal, ultrapassando os 500 milhes de dlares de bilheteria com Guerra Mundial Z  no qual, no por coincidncia, tem de se bater com zumbis. O caso, porm,  que esse pblico desfaz seus dolos com a mesma facilidade com que os construiu. Depp neste momento amarga um fiasco pico com O Cavaleiro Solitrio, uma tentativa malsucedida de repetir a frmula que o consagrou. Robert Downey Jr. continua por cima  mas no se testou fora das franquias com que se reergueu. Homem de Ferro e Sherlock Holmes. O prprio Cruise foi muito bem com Misso Impossvel  Protocolo Fantasma: continuaes so outra coisa que essa plateia adora. Fora delas, como se viu, as chances de um astro so bem mais incertas. 
     Tom Cruise e todos os seus companheiros do, digamos, grupo A hoje enfrentam as mesmas dificuldades para emplacar um sucesso porque deixaram de ser a razo pela qual um filme atrai espectadores ou deixa de atra-los. Em 2000, o ano em que Cruise estrelou Misso: impossvel  2, acompanharam-no no topo da bilheteria Jim Carrey (O Grinch), Tom Hanks (Nufrago), Russell Crowe (Gladiador), Mel Gibson (Do que as Mulheres Gostam), George Clooney (Mar em Fria) e Robert De Niro e Ben Stiller (Entrando numa Fria). Quais os filmes que hoje lideram os recordes mundiais de bilheteria? Pela ordem, Avatar, Tittanic, Os Vingadores, o segundo Harry Potter, Homem de Ferro 3, Transformers 3, o terceiro O Senhor dos Anis.  exceo de Tittanic, so todos filmes passados em mundos distantes, paralelos ou imaginrios. E, o fundamental, estrelados por super-heris, robs ou criaturas fantsticas. Esses so os verdadeiros astros de hoje. E, enquanto as chaves do reino estiverem nas mos dos adolescentes, continuaro a s-lo  e a maior revoluo na histria do relacionamento entre o cinema e o seu pblico continuar em andamento. 


